A viagem que mudou nossa família!

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A história por trás da nossa primeira viagem internacional: por que decidi ir sozinha para Ushuaia e El Calafate, e como isso mudou nossa família.


Arquivo acervo pessoal

Antes de qualquer roteiro, qualquer dica de hospedagem ou lista de passeios, tem uma história que precisa ser contada primeiro — porque foi ela que deu origem a tudo o que esse blog é hoje. Essa não é a história de uma viagem. É a história de uma decisão que mudou a forma como nossa família enxerga o mundo.

De onde eu venho

Vim de uma família humilde e muito batalhadora. Meus pais conseguiram nos dar o suficiente para uma vida digna — sem luxos extremos, mas com todas as necessidades supridas. Viajar simplesmente não fazia parte da nossa realidade. Não sei bem explicar o motivo — talvez fosse cultural — mas não era comum ver as pessoas ao nosso redor viajando, falando sobre viagens, se planejando para conhecer lugares novos. Isso parecia coisa de gente muito rica, um mundo distante do nosso.

Foi só com a nossa geração, com a chegada da tecnologia e principalmente da internet, que viajar começou a parecer mais acessível, mais possível, mais desejável.

Os anos que passaram

Minha primeira filha, Letícia, nasceu em 2011, quando eu tinha 28 anos, cheia de energia. Ela foi um bebê muito tranquilo — dormia bem à noite, sempre “de boa”. Eu sempre quis ter dois filhos, e mesmo com uma filha tão fácil, fui adiando o segundo. Às vezes a desculpa era a idade dela, ainda muito pequena. Às vezes era uma questão financeira. Às vezes era minha carga horária de trabalho. Às vezes, a falta de uma rede de apoio.

Os anos foram passando dessa forma, até que coloquei um limite para mim mesma: precisava ter o segundo filho até os 35 anos, ou não teria mais. Quando os 35 chegaram, tirei o DIU e começamos a tentar. Passaram-se meses, e nada. Um ano, e nada. Até que, finalmente, veio a notícia: estávamos esperando um bebê.

Mas nos exames, algo não estava certo. Faltava o som dos batimentos cardíacos. Esperamos, refizemos os exames, e a confirmação veio: a gestação não havia evoluído, e perdemos aquele bebê. Foi um momento de muita dor, que me abalou profundamente. Mesmo assim, seguimos as recomendações médicas e continuamos tentando. Poucos meses depois, veio a notícia de uma nova gestação — e dessa vez, tudo certo. Em 2020, chegou nosso Samuel: um bebê grande, forte, e uma versão bem diferente de irmã mais velha tranquila que tínhamos vivido com a Letícia.

Uma mãe em outra fase da vida

Arquivo acervo pessoal

Samuel foi um bebê bem mais chorão, que não dormia tão bem quanto a irmã — super saudável, mas com uma personalidade que exigia muito mais de mim. Quando ele completou 2 anos, eu já estava com 38, numa fase hormonal diferente, me sentindo mais cansada do que nunca.

Essa combinação despertou em mim uma necessidade que eu não sabia nomear direito na época: a necessidade de me reconectar comigo mesma. De ter um momento só meu. De lembrar que eu era capaz de fazer algo só para mim, por mim — porque eu sentia que, em algum momento no meio da rotina de cuidar de todo mundo, eu tinha me deixado de lado. Esquecido do que eu gostava. De quem eu era antes de ser só “mãe”.

A decisão de viajar sozinha

Não me lembro exatamente como a ideia surgiu, mas decidi que queria fazer uma viagem sozinha. Sozinha mesmo — sem marido, sem filhos, sem amigos, sem grupo, sem ninguém. Só eu e a minha própria companhia.

Mas para onde? Aí começou outro dilema. Eu não queria ir para um destino onde não me sentisse segura estando sozinha. Nada de praia, nada de resort, nada de lugar isolado.

Foi então que, por acaso, apareceu na minha timeline algo sobre uma geleira — um gelo glacial, aqui do lado do Brasil, onde as pessoas caminhavam por uma passarela e ficavam frente a frente com aquela imensidão de gelo. Na hora, pensei: é isso que eu quero ver. Era o Perito Moreno, em El Calafate, na Argentina.

Comecei a consumir vídeo atrás de vídeo, buscando informações sobre a região, e descobri que a combinação perfeita para essa viagem seria incluir também Ushuaia — a cidade do fim do mundo.

Avisando (e sendo ignorada)

Comecei a me planejar — e a avisar. Sim, avisei com antecedência que precisava fazer aquilo, que ia fazer isso por mim. Eu precisava provar para mim mesma que, se eu era capaz de cuidar da minha família inteira, também era capaz de fazer algo por mim. Capaz de realizar meus próprios sonhos, através do meu próprio trabalho, do meu próprio dinheiro. Sair sozinha pela primeira vez. Primeira vez em outro país, sozinha. E, com muita determinação, coloquei essa viagem como meta para o meu presente de 40 anos. Tinha dois anos inteiros para organizar tudo.

Meu marido nunca acreditou que eu tivesse coragem de verdade — até o dia em que emiti as passagens. Ele nunca tentou entender de fato a motivação por trás daquilo, como seria, quando seria. Mas o dia chegou.

Sempre que eu pesquisava, fazia reservas, via os passeios disponíveis, uma parte de mim pensava: “poxa, eu vou vivenciar tudo isso sozinha? Sem as pessoas que eu amo?” No fundo, não achava justo. Cheguei a falar para ele: “vem comigo, você quer ir?” Mostrava vídeos, tentava despertar o interesse dele. Mas ele não demonstrava interesse nenhum, e continuava duvidando — sempre dizendo que não dava, que ia atrapalhar financeiramente, sem nem ao menos saber quanto custaria a viagem.

O dia em que comprei a passagem

Quando finalmente comprei a passagem, mandei para ele ver. Ele ficou uma semana emburrado, sem acreditar que eu realmente tinha feito aquilo — mesmo eu tendo avisado por anos que faria. Ainda assim, insisti para que ele fosse. Ele questionou como iria, se nem sabia quando seria, quanto custaria.

Calmamente, planilhei tudo e mostrei que eu não estava fazendo nenhuma loucura. Eu sabia exatamente como sairíamos daqui, por onde chegaríamos, o que fazer, onde ficar, onde comer, como pagar. Eu tinha o controle da situação. Eu não estava sendo impulsiva viajando sozinha para fora do país — eu sabia exatamente o que estava fazendo.

E assim, ele topou. Corri para comprar a passagem dele também, incluí-lo nas hospedagens que eu já tinha reservado. E foi por esse atrevimento meu que nossa vida mudou completamente.

O que essa viagem nos ensinou

Eu realizei um sonho. Mas foi chegando lá que ele começou a sonhar também — pela primeira vez, ele mesmo, com seus próprios olhos, diante daquela paisagem que só tínhamos visto em vídeo até então.

Foi depois de Ushuaia que nossa mente se abriu de verdade. Essa viagem nos mostrou que tudo é possível com planejamento e muita coragem. Nos mostrou que o mundo é muito maior do que imaginávamos, e que cada cantinho dele está pronto, esperando para ser conhecido.

Hoje, olhando para trás, entendo que essa não foi apenas uma viagem para ver uma geleira. Foi o momento em que decidi que eu ainda existia, além de todos os papéis que eu exercia todos os dias. E foi essa decisão — de ir, mesmo com medo, mesmo sem apoio no começo, mesmo não sabendo exatamente como tudo terminaria — que abriu a porta para tudo que viveríamos como família depois: Bariloche, Itália, Portugal, o cruzeiro pelo Nordeste, e tantas outras viagens que ainda estão por vir.

Se você está numa fase parecida com a que eu estava — se sentindo esquecida no meio da correria de cuidar de todo mundo, com vontade de fazer algo só seu, mas sem saber bem como ou se teria coragem — deixo aqui o que aprendi: às vezes, a única forma de descobrir se você é capaz é simplesmente comprando a passagem.

Por que decidi contar essa história aqui

Esse blog nasceu para compartilhar roteiros, dicas práticas e experiências reais de viagem em família. Mas antes de qualquer dica prática, achei importante você entender de onde tudo isso vem. Não fui criada numa família de viajantes. Não tive, durante a maior parte da minha vida adulta, a menor ideia de que sairia do Brasil sozinha um dia, muito menos que voltaria de lá com meu marido finalmente enxergando o mesmo sonho que eu já carregava havia anos.

Se esse blog puder ajudar mais alguma família a se planejar, a economizar, a evitar os perrengues que já passamos, ótimo — é exatamente para isso que ele existe. Mas se, além disso, puder inspirar alguém que está na mesma encruzilhada em que eu estive — desejando algo só para si, mas sem coragem de dar o primeiro passo — esse post já terá cumprido seu propósito.


O que vem a seguir

Esse foi só o começo da história. Nos próximos posts, vou contar como foi de verdade a viagem: a chegada a Ushuaia, o dia em frente ao Perito Moreno em El Calafate, os passeios, os aprendizados práticos e, claro, todos os detalhes de roteiro para quem quiser viver uma experiência parecida com a nossa.


Em minhas redes sociais sempre atualização e dicas em tempo real, meu canal no Youtube também posto os relatos das viagens, então quero te ver lá também:

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Comentários

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