Antes dos roteiros e das dicas, existiu uma decisão: viajar sozinha para Ushuaia e El Calafate na Patagônia Argentina aos 40 anos — e descobrir que aquela viagem também mudaria os sonhos da nossa família.

Antes de qualquer roteiro de Ushuaia, dica sobre o Perito Moreno ou lista de passeios na Patagônia, existe uma história que precisa ser contada. Aos 40 anos, decidi viajar sozinha para Ushuaia e El Calafate, sim escolhi essas cidades da Argentina. O que começou como uma tentativa de me reencontrar acabou se transformando na viagem que abriu os olhos da nossa família para o mundo. Neste relato, conto por que tomei essa decisão, como comecei a planejar a viagem e o que mudou depois que meu marido decidiu embarcar comigo. Se você chegou aqui procurando coragem para viajar sozinha, inspiração para viajar em família ou simplesmente quer conhecer a origem do Passe Passeando, esta é a história por onde tudo começa, e aqui você pode me conhecer também
Índice
De uma família que não viajava ao sonho de conhecer o mundo
Vim de uma família humilde e muito batalhadora. Meus pais conseguiram nos dar o suficiente para uma vida digna — sem luxos extremos, mas com todas as necessidades supridas. Viajar simplesmente não fazia parte da nossa realidade. Não sei bem explicar o motivo — talvez fosse cultural — mas não era comum ver as pessoas ao nosso redor viajando, falando sobre viagens, se planejando para conhecer lugares novos. Isso parecia coisa de gente muito rica, um mundo distante do nosso.
Foi só com a nossa geração, com a chegada da tecnologia e principalmente da internet, que viajar começou a parecer mais acessível, mais possível, mais desejável.
Maternidade, rotina e a vontade de me reencontrar
Minha primeira filha, Letícia, nasceu em 2011, quando eu tinha 28 anos, cheia de energia. Ela foi um bebê muito tranquilo — dormia bem à noite, sempre “de boa”. Eu sempre quis ter dois filhos, e mesmo com uma filha tão fácil, fui adiando o segundo. Às vezes a desculpa era a idade dela, ainda muito pequena. Às vezes era uma questão financeira. Às vezes era minha carga horária de trabalho. Às vezes, a falta de uma rede de apoio.
Os anos foram passando dessa forma, até que coloquei um limite para mim mesma: precisava ter o segundo filho até os 35 anos, ou não teria mais. Quando os 35 chegaram, tirei o DIU e começamos a tentar. Passaram-se meses, e nada. Um ano, e nada. Até que, finalmente, veio a notícia: estávamos esperando um bebê.
Mas nos exames, algo não estava certo. Faltava o som dos batimentos cardíacos. Esperamos, refizemos os exames, e a confirmação veio: a gestação não havia evoluído, e perdemos aquele bebê. Foi um momento de muita dor, que me abalou profundamente. Mesmo assim, seguimos as recomendações médicas e continuamos tentando. Poucos meses depois, veio a notícia de uma nova gestação — e dessa vez, tudo certo. Em 2020, chegou nosso Samuel: um bebê grande, forte, e uma versão bem diferente de irmã mais velha tranquila que tínhamos vivido com a Letícia.
Uma mãe em outra fase da vida

Samuel foi um bebê bem mais chorão, que não dormia tão bem quanto a irmã — super saudável, mas com uma personalidade que exigia muito mais de mim. Quando ele completou 2 anos, eu já estava com 38, numa fase hormonal diferente, me sentindo mais cansada do que nunca.
Essa combinação despertou em mim uma necessidade que eu não sabia nomear direito na época: a necessidade de me reconectar comigo mesma. De ter um momento só meu. De lembrar que eu era capaz de fazer algo só para mim, por mim — porque eu sentia que, em algum momento no meio da rotina de cuidar de todo mundo, eu tinha me deixado de lado. Esquecido do que eu gostava. De quem eu era antes de ser só “mãe”.
Por que escolhi viajar sozinha para Ushuaia e El Calafate
Não me lembro exatamente como a ideia surgiu, mas decidi que queria fazer uma viagem sozinha. Sozinha mesmo — sem marido, sem filhos, sem amigos, sem grupo, sem ninguém. Só eu e a minha própria companhia.
Mas para onde? Aí começou outro dilema. Eu não queria ir para um destino onde não me sentisse segura estando sozinha. Nada de praia, nada de resort, nada de lugar isolado.
Foi então que apareceu na minha timeline um vídeo sobre o Glaciar Perito Moreno, em El Calafate, na Patagônia Argentina. A imagem daquela geleira vista de perto me marcou imediatamente. Eu queria conhecer um lugar grandioso, mas também precisava escolher um destino em que me sentisse minimamente segura viajando sozinha.Enquanto pesquisava El Calafate, descobri Ushuaia, conhecida como a cidade do fim do mundo. A combinação dos dois destinos fez sentido para aquela primeira viagem internacional: natureza, história, passeios organizados e a possibilidade de planejar cada etapa com antecedência.
Comecei a consumir vídeo atrás de vídeo, buscando informações sobre a região, e descobri que a combinação perfeita para essa viagem seria incluir também Ushuaia — a cidade do fim do mundo.
Avisando (e sendo ignorada)
Como comecei a planejar a viagem para a Patagônia
Comecei a me planejar — e a avisar. Sim, avisei com antecedência que precisava fazer aquilo, que ia fazer isso por mim. Eu precisava provar para mim mesma que, se eu era capaz de cuidar da minha família inteira, também era capaz de fazer algo por mim. Capaz de realizar meus próprios sonhos, através do meu próprio trabalho, do meu próprio dinheiro. Sair sozinha pela primeira vez. Primeira vez em outro país, sozinha. E, com muita determinação, coloquei essa viagem como meta para o meu presente de 40 anos. Tinha dois anos inteiros para organizar tudo.
Meu marido nunca acreditou que eu tivesse coragem de verdade — até o dia em que emiti as passagens. Ele nunca tentou entender de fato a motivação por trás daquilo, como seria, quando seria. Mas o dia chegou.
Sempre que eu pesquisava, fazia reservas, via os passeios disponíveis, uma parte de mim pensava: “poxa, eu vou vivenciar tudo isso sozinha? Sem as pessoas que eu amo?” No fundo, não achava justo. Cheguei a falar para ele: “vem comigo, você quer ir?” Mostrava vídeos, tentava despertar o interesse dele. Mas ele não demonstrava interesse nenhum, e continuava duvidando — sempre dizendo que não dava, que ia atrapalhar financeiramente, sem nem ao menos saber quanto custaria a viagem.
Eu não tinha experiência anterior com uma viagem internacional sozinha. Por isso, o planejamento foi parte essencial da decisão. Pesquisei como chegar, onde ficar, como me deslocar, quais passeios faziam sentido, quanto poderia gastar e o que precisaria reservar com antecedência.Mais do que montar um roteiro, eu precisava transformar uma vontade em um plano possível. Foi esse processo — pesquisar, comparar, organizar os custos e tomar uma decisão de cada vez — que me deu segurança para comprar a passagem.
O dia em que comprei a passagem — e tudo ficou real
Quando finalmente comprei a passagem, mandei para ele ver. Ele ficou uma semana emburrado, sem acreditar que eu realmente tinha feito aquilo — mesmo eu tendo avisado por anos que faria. Ainda assim, insisti para que ele fosse. Ele questionou como iria, se nem sabia quando seria, quanto custaria.
Calmamente, planilhei tudo e mostrei que eu não estava fazendo nenhuma loucura. Eu sabia exatamente como sairíamos daqui, por onde chegaríamos, o que fazer, onde ficar, onde comer, como pagar. Eu tinha o controle da situação. Eu não estava sendo impulsiva viajando sozinha para fora do país — eu sabia exatamente o que estava fazendo.
E assim, ele topou. Corri para comprar a passagem dele também, incluí-lo nas hospedagens que eu já tinha reservado. E foi por esse atrevimento meu que nossa vida mudou completamente.
O que Ushuaia e El Calafate ensinaram à nossa família
A viagem para Ushuaia e El Calafate não mudou apenas os destinos que passaram a fazer parte dos nossos planos. Ela mudou a forma como enxergávamos a possibilidade de viajar. Eu descobri que conseguia organizar uma viagem internacional e enfrentar o medo de ir sozinha; meu marido descobriu que aquele sonho também poderia ser dele.Depois dessa experiência, vieram Bariloche, Itália, Portugal e o cruzeiro pelo litoral brasileiro. Cada viagem teve um ritmo, um orçamento e desafios diferentes, mas todas começaram com a mesma percepção: viajar em família não exige uma vida perfeita nem um roteiro sem imprevistos. Exige planejamento possível, conversa e disposição para adaptar os planos.

Foi depois de Ushuaia que nossa mente se abriu de verdade. Essa viagem nos mostrou que tudo é possível com planejamento e muita coragem. Nos mostrou que o mundo é muito maior do que imaginávamos, e que cada cantinho dele está pronto, esperando para ser conhecido.
Hoje, olhando para trás, entendo que essa não foi apenas uma viagem para ver uma geleira. Foi o momento em que decidi que eu ainda existia, além de todos os papéis que eu exercia todos os dias. E foi essa decisão — de ir, mesmo com medo, mesmo sem apoio no começo, mesmo não sabendo exatamente como tudo terminaria — que abriu a porta para tudo que viveríamos como família depois: Bariloche, Itália, Portugal, o cruzeiro pelo Nordeste, e tantas outras viagens que ainda estão por vir.
Se você está numa fase parecida com a que eu estava — se sentindo esquecida no meio da correria de cuidar de todo mundo, com vontade de fazer algo só seu, mas sem saber bem como ou se teria coragem — deixo aqui o que aprendi: às vezes, a única forma de descobrir se você é capaz é simplesmente comprando a passagem.
Por que essa história deu origem ao Passe Passeando
O Passe Passeando nasceu para compartilhar o que aprendemos antes, durante e depois das nossas viagens. Aqui, você encontra roteiros vividos, custos contextualizados, escolhas que funcionaram, perrengues e informações práticas para planejar uma viagem em família com expectativas mais reais.Esta história vem antes dos guias porque explica a origem do blog. Eu não fui criada em uma família de viajantes e também não comecei sabendo como organizar uma viagem internacional. Aprendi pesquisando, comparando, planejando e vivendo cada etapa — e é esse processo que procuro compartilhar nos próximos relatos.
Se esse blog puder ajudar mais alguma família a se planejar, a economizar, a evitar os perrengues que já passamos, ótimo — é exatamente para isso que ele existe. Mas se, além disso, puder inspirar alguém que está na mesma encruzilhada em que eu estive — desejando algo só para si, mas sem coragem de dar o primeiro passo — esse post já terá cumprido seu propósito.
O que você encontrará nos próximos relatos
Minha primeira viagem internacional começou como uma decisão pessoal, mas terminou abrindo um novo caminho para toda a família. Ushuaia e El Calafate continuam ligados a esse momento porque foram os destinos em que percebi que viajar podia ser mais possível do que eu imaginava. Se você está pensando em viajar sozinha, organizar a primeira viagem internacional ou planejar uma experiência em família, espero que este relato ajude a transformar a vontade em um próximo passo concreto. Talvez ele comece com uma pesquisa. Talvez com uma planilha. Talvez com a coragem de comprar a passagem.
Continue planejando sua viagem
Se esta história despertou vontade de conhecer a Patagônia Argentina, estes são os próximos relatos e guias do Passe Passeando:
- Milão vale a pena? O que fazer, quantos dias ficar e roteiro real
- Como Planejar uma Viagem do Zero: Checklist Passo a Passo
- Roma em 3 dias: roteiro real, o que fazer e quanto custa
- Multas no ônibus em Roma: o que aconteceu com nossa família
- Itália em família: nosso roteiro real de 10 dias pelo norte e sul
Nas minhas redes sociais, compartilho atualizações e dicas em tempo real. No YouTube, publico relatos das viagens e detalhes que podem ajudar no seu planejamento. Se quiser acompanhar os próximos conteúdos, encontre o Passe Passeando por aqui:
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You tube: Passe Passeando

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